Eu tenho saudade da internet. Não da internet rápida. Não dos aplicativos. Não do streaming em 4K.

Tenho saudade daquela internet meio quebrada, lenta, estranha e imprevisível que existia quando ninguém parecia saber exatamente o que estava fazendo ali. Entrávamos em fóruns usando apelidos. Criávamos blogs que provavelmente meia dúzia de pessoas liam. Conversávamos com desconhecidos no IRC, ICQ, MSN, Orkut e em comunidades que surgiam e desapareciam praticamente sem deixar rastros.

A internet parecia um lugar. Hoje ela parece uma infraestrutura. E talvez essa diferença explique muita coisa. Recentemente assisti a dois documentários na Netflix que, apesar de contarem histórias diferentes, parecem capítulos de uma mesma história. Privacidade Hackeada mostra como dados pessoais se transformaram em matéria-prima para sistemas capazes de compreender e potencialmente influenciar o comportamento das pessoas.

A Rede Antissocial: Dos Memes ao Caos olha para outro lado dessa mesma internet: comunidades anônimas, memes, trollagem, 4chan, Anonymous, teorias conspiratórias e movimentos que começaram como brincadeiras dentro de fóruns e acabaram produzindo consequências no mundo real.

Separadamente, são histórias interessantes. Juntas, elas contam algo muito maior. Contam a história de como perdemos o controle da internet. Ou talvez de como nunca tivemos controle algum.

No começo, ninguém sabia quem você era

Uma das ideias mais poderosas da internet original era o anonimato. Na rede, você poderia ser qualquer pessoa. Seu nome não importava. Sua profissão não importava. Sua aparência não importava. Em muitos espaços, você era apenas um nickname.

Isso produziu coisas extraordinárias. Pessoas que provavelmente jamais se encontrariam no mundo físico começaram a formar comunidades baseadas exclusivamente em interesses. Programadores. Gamers. Artistas. Hackers. Fãs de filmes. Colecionadores. Pessoas obcecadas pelas coisas mais específicas imagináveis.

Mas anonimato também significa ausência de reputação. E ausência de reputação pode significar ausência de consequências.

Poucos lugares representam isso tão bem quanto o 4chan.

Criado como um imageboard anônimo, o site se tornou uma espécie de laboratório cultural da internet. Dali saíram memes, piadas internas, movimentos coletivos e parte importante da linguagem que posteriormente dominaria as redes sociais.

Mas também surgiram comportamentos muito mais problemáticos. Campanhas coordenadas. Assédio. Desinformação. Teorias conspiratórias. Manipulação.

O documentário A Rede Antissocial mostra justamente essa transformação: aquilo que inicialmente parecia apenas uma gigantesca brincadeira entre desconhecidos começou a escapar da tela.

O meme virou discurso. O discurso virou movimento. E o movimento começou a produzir consequências reais.

A internet descobriu uma coisa assustadora:

milhares de desconhecidos coordenados podem exercer poder.

E não demoraria muito para empresas descobrirem exatamente a mesma coisa.

Então descobrimos quem você era

Existe uma ironia gigantesca na evolução da internet.

Primeiro lutamos para sermos anônimos. Depois entregamos voluntariamente nossa identidade.

Nome. Idade. Cidade. Relacionamentos. Fotografias. Amigos. Localização. Gostos musicais. Posicionamentos. Lugares frequentados. Produtos desejados. Pessoas admiradas. Pessoas odiadas. Medos. Desejos.

E fizemos tudo isso em troca de algo aparentemente inocente: conveniência.

É aqui que Privacidade Hackeada entra nessa história.

O documentário acompanha o escândalo envolvendo a Cambridge Analytica, empresa que se tornou símbolo do lado obscuro da exploração de dados nas redes sociais após a eleição presidencial norte-americana de 2016.

Mas reduzir essa história apenas à Cambridge Analytica seria confortável demais. Porque permitiria imaginar que o problema era uma empresa.

Não era.

O verdadeiro problema era perceber que comportamento humano havia se transformado em dado computável.

E dados podem ser classificados. Comparados. Agrupados. Previstos. E utilizados.

Não era mais necessário perguntar em quem alguém pretendia votar. Talvez fosse possível inferir. Não era necessário perguntar do que alguém tinha medo. Seu comportamento poderia revelar.

A partir daí, publicidade deixou de significar apenas colocar uma mensagem diante de muitas pessoas. Passou a significar encontrar a mensagem certa, para a pessoa certa, no momento em que ela estivesse mais suscetível a recebê-la.

E isso muda completamente o jogo.

O produto nunca foi apenas você

Existe uma frase repetida há anos quando falamos de plataformas digitais:

“Se você não paga pelo produto, você é o produto.”

Ela é boa. Mas talvez esteja incompleta.

Você não é exatamente o produto.

Seu comportamento é.

Mais especificamente, a capacidade de prever o seu próximo comportamento.

Imagine saber que alguém está pensando em trocar de carro antes dessa pessoa começar a procurar carros. Que um relacionamento está entrando em crise. Que alguém começou a considerar determinada posição política. Que uma pessoa está insegura financeiramente. Que está com medo. Que está com raiva. Que está vulnerável.

Individualmente, cada curtida parece insignificante. Cada vídeo assistido parece irrelevante. Cada busca parece descartável. Cada segundo que você permanece olhando para determinada publicação parece não significar nada.

Mas bilhões desses pequenos sinais formam algo completamente diferente.

Um perfil.

Talvez um perfil de você que nem você conheça completamente.

O 4chan descobriu o poder da multidão. As plataformas descobriram como direcioná-la.

É aqui que os dois documentários começam a conversar.

O 4chan mostrou que comunidades digitais poderiam produzir movimentos espontâneos gigantescos. Memes atravessavam países. Operações surgiam sem liderança central. Pessoas que nunca haviam se encontrado conseguiam agir coletivamente.

Era caótico. Imprevisível. Orgânico.

Mas as grandes plataformas adicionaram uma nova camada a isso:

algoritmos.

De repente, não precisávamos mais procurar comunidades. As comunidades encontravam a gente.

O sistema passou a decidir qual publicação apareceria primeiro. Qual vídeo seria recomendado depois. Qual discussão ganharia alcance. Qual conteúdo desapareceria.

E existe um problema fundamental nisso.

Algoritmos de recomendação não precisam compreender verdade. Precisam compreender atenção.

E poucas coisas capturam atenção tão bem quanto emoção. Indignação. Medo. Raiva. Choque. Identificação.

A internet começou como uma rede de informação. Mas descobriu que emoções possuem muito mais capacidade de distribuição.

O meme deixou de ser apenas uma piada

Talvez uma das coisas mais fascinantes de A Rede Antissocial seja perceber como memes aparentemente idiotas podem carregar ideias extremamente complexas.

Um meme é pequeno. Visual. Fácil de entender. Fácil de copiar. Fácil de modificar. E principalmente: fácil de compartilhar.

É quase a unidade perfeita de transmissão cultural da internet.

Antes, para convencer alguém sobre determinada ideia, talvez fosse necessário escrever um artigo como este. Hoje uma imagem com quatro palavras pode alcançar milhões de pessoas antes do almoço.

Isso não significa que memes sejam ruins. Significa que descobrimos uma tecnologia extremamente eficiente para transportar ideias.

E qualquer tecnologia capaz de transportar ideias também pode transportar propaganda. Desinformação. Preconceito. Conspiração. Manipulação. Ou verdade.

A ferramenta não escolhe. Nós escolhemos. Ou, cada vez mais, o algoritmo escolhe por nós.

E então chegou a inteligência artificial

É impossível assistir a esses dois documentários hoje sem pensar no próximo capítulo.

Inteligência artificial.

Porque durante aproximadamente duas décadas nós alimentamos a internet com uma quantidade absurda de informação sobre nós mesmos.

Escrevemos. Fotografamos. Filmamos. Comentamos. Curtimos. Avaliamos. Discutimos. Pesquisamos.

Produzimos talvez o maior registro coletivo de comportamento humano da história.

Agora construímos sistemas capazes de interpretar uma parte cada vez maior desse oceano de informação. E mais do que isso: capazes de produzir informação.

Texto. Imagem. Voz. Vídeo. Pessoas que nunca existiram.

A diferença entre conteúdo verdadeiro e conteúdo sintético tende a ficar cada vez menos óbvia.

E isso cria uma combinação inédita.

De um lado, sistemas que sabem cada vez mais sobre nós. Do outro, sistemas capazes de produzir mensagens cada vez mais convincentes para nós.

A Cambridge Analytica precisava criar campanhas. O futuro talvez permita criar uma campanha diferente para cada pessoa.

Não apenas:

“qual anúncio funciona melhor para homens entre 35 e 45 anos?”

Mas:

“qual argumento provavelmente convenceria Pedro às 22h43 de uma terça-feira?”

Essa possibilidade deveria nos incomodar. Muito.

Talvez o problema nunca tenha sido a tecnologia

É fácil terminar essa discussão dizendo que redes sociais são ruins. Que algoritmos são ruins. Que inteligência artificial é perigosa.

Mas isso seria simplificar demais.

A internet também democratizou conhecimento. Criou negócios. Conectou famílias. Derrubou barreiras geográficas. Permitiu que qualquer pessoa publicasse suas ideias para o planeta inteiro.

Talvez nenhuma tecnologia na história tenha dado tanto poder de comunicação para indivíduos comuns.

O problema é que descobrimos algo sobre nós mesmos no processo.

Descobrimos que gostamos de atenção. Gostamos de pertencimento. Gostamos de estar certos. Gostamos de encontrar pessoas que concordam conosco. E gostamos especialmente de encontrar motivos para acreditar que o outro lado está errado.

As plataformas não inventaram essas características. Elas apenas aprenderam a medi-las. E depois aprenderam a monetizá-las.

A internet não está quebrada

Talvez essa seja a conclusão mais desconfortável depois de assistir aos dois documentários.

Durante anos repetimos que “a internet está quebrada”.

Talvez não esteja.

Talvez ela esteja funcionando perfeitamente dentro dos incentivos que criamos.

Plataformas precisam de atenção. Conteúdo extremo captura atenção. Atenção gera dados. Dados melhoram sistemas de recomendação. Recomendações aumentam o tempo dentro da plataforma. Tempo gera publicidade. Publicidade gera dinheiro.

Não existe necessariamente um vilão sentado diante de uma tela decidindo destruir a sociedade.

Existe algo talvez mais difícil de combater:

um sistema no qual quase todos os participantes estão simplesmente respondendo aos incentivos disponíveis.

Usuários querem atenção. Criadores querem alcance. Plataformas querem retenção. Anunciantes querem conversão. Algoritmos querem otimizar métricas.

E ninguém precisa desejar o caos para que o caos seja um resultado possível.

Nós construímos isso

Existe uma cena imaginária que sempre me vem à cabeça quando penso na internet.

Um adolescente sentado diante de um computador no começo dos anos 2000.

Monitor CRT. Internet discada. MSN aberto. Algum fórum estranho em outra janela.

Ele provavelmente acreditava que estava entrando em um novo mundo.

E estava.

Só não imaginava que aquele mundo um dia conheceria seus hábitos melhor do que muitas pessoas próximas dele.

Também não imaginava que memes poderiam interferir em eleições. Que algoritmos poderiam determinar quais notícias bilhões de pessoas veriam. Que empresas construiriam negócios trilionários baseados em nossa atenção. Ou que máquinas seriam capazes de conversar conosco.

Talvez seja por isso que Privacidade Hackeada e A Rede Antissocial funcionem tão bem quando vistos juntos.

Eles não são apenas documentários sobre Cambridge Analytica, 4chan, Anonymous ou redes sociais.

São documentários sobre nós.

Sobre aquilo que fizemos quando recebemos a ferramenta de comunicação mais poderosa já criada.

Primeiro usamos a internet para encontrar outras pessoas. Depois usamos para mostrar quem éramos. Depois as plataformas começaram a descobrir quem éramos. E agora os algoritmos estão aprendendo a prever quem poderemos ser.

A próxima batalha da internet talvez não seja pela nossa privacidade.

Talvez seja por algo ainda mais fundamental.

Nossa capacidade de decidir quais ideias realmente são nossas.